O Luar
Ainda o vejo na barranca batida do pesqueiro, cotovelos entre os joelhos, atento à linha estendida.
- Noite alta, o rio corre sereno.
Observo-o pelas costas sob a luz tênue do lampião.
Meditativo, lança o toco do cigarro n'água e ato contínuo, levanta.
Olha para o chão.
- Vagas palavras murmuradas encadeam-se, como se falasse ao rio. Absorto, jacta ao vazio uma longa sentença em um latim colegial.
- Assusta a noite...
O clarão da lua emoldura seu vulto contra o espelho do rio. - Estende o braço e a vaga oratória recrudesce furiosa, como a surdina que precede os temporais.
- Brilha o litro de cana como se fosse uma espada! - Divaga, conclama, exclama, e vocifera. Não perde o fio-da-meada...
- Estremece a barranca. Ecoam pelas váus as falas entrecortadas... Calam-se os grilos.
Seu braço descreve um arco e estilhaça a lua com garrafada certeira.
Desemaranha a linha dos pés e senta...
(Pelas tocas que há nas beiras e pelas frestas que há nas pedras o rio ainda engole a marola...)
>>> prá ouvir antes ou depois d'O Tiro
O Tiro.
(À Deleuze)
Quem não viu alojar bala lambida no cano duma “flobé”, não sabe o poder que tem...
Balinha longa e fina, de estalido seco e grande alcance.
- Tudo bobagem. Não fosse uma clareira no mato. -
- Paramos:
Eu vinha atrás pelo zigue-zague da trilha por entre os ramos dos sarandís e carás que crescem pelas barrancas à atravancar os carreiros.
-Cheguei a enxergar as duas por entre os galhos de um pinheiro. Acabavam de pousar: - Bico longo, curvo e amarelo, já ajeitavam as penas (de um azulão cintilante à negro; por baixo das asas, tufos brancos, de uma alvura sem par)
Era longe demais: - Duvidei. (mas não disse.)
Pesadinha como são, João levantou devagar a “surda”. Ainda lembro o cedro oleoso da coronha, entre o guarda-mato e a telha, e o dedo a pressionar o gatilho. -(Nessas armas, a mira é um pequeno monolito de óxido escuro, entre o horizonte e a seteira da alça. [É preciso pegá-la grossa se o tiro é de longe.]) –
- Páóóhhh...
-O arrufo de pena e asa, como uma bola em frangalhos, despenca pelas galhadas.
É a impressão que se tem... - Ecoa o tiro pelas encostas... Fica o ouvido zunindo do disparo da bala; do estampido do tiro! Uma fumaça azulada e um cheiro de fulminato cala pelas narinas.
-Num movimento de embalo, balança a corucaca no galho, como num-vai-não-vai, pescoço comprido, estendido, desajeitada...
(A outra, [coitada] a bala pegou)
