( - Em 1º de abril de 1964, apoiando as forças que depuseram João Goulart, um grande contingente armado partiu da Vila Militar de Deodoro para o centro do Rio de Janeiro.)




SETEMBRO


O Cruzeiro do Sul levantou entre os cerros do Campo de Deodoro.
Oldengard meio às cegas arrasta suas sandálias pelo areião dos estábulos. A tarde foi quente e opressiva, e o calor tropical cedeu a uma brisa noturna com um vago cheiro de mar. Os rumores do dia constrangem a noite carioca e os contrafortes das montanhas que cercam a base reverberam aos motores dos aviões em treinamento. Uma densa fumaça cor de chumbo empana o horizonte e esconde a Acrux da constelação de Centauro. Escorpião tremeluz alta junto ao facho mortiço e amarelado de Júpiter.

Atravessamos o quartel em direção a cantina. Cavalos ferrados e cobertos pateiam sonolentos nas báias. Um cheiro adocicado de alfafa e estrume rebate o bafio que emana das águas oleosas do riacho da Vila Militar.
- Jantamos e voltamos pelo campo escuro varando pelas cancelas. Na cantina os arqueiros acantonados entoavam uma canção militar. Podia se ouvir o treinador do Distrito que carregava nos “erres”. (Instigado ao jantar por tonitruante cantata de Oldengard, prosseguia ferrenho, a reger outra marcha com uma atávica sanha marcial!)

Perguntei: Quem derrubou Fulgencio Batista?
- O humor de Oldengard tornou-se acre, farejou à frente uma mijada ainda quente e examinou a espuma brilhante, nariz franzido, óculos à ponta; sentenciou: hoje vão ter mosquitos famintos ou fecham as janelas. - O que fizeram depois da queda é o que não me agrada.
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O dia foi cansativo, tiroteios desencontrados pras bandas do Gericinó, tráfego intenso e veloz de zona conflagrada; rajadas de metralhadoras em treinamento, paraquedistas que pairam sobre o Campo dos Afonsos, pneus estourados como matracas-de-fole na Avenida Brasil;
Helicópteros, como as cigarras nos charcos, flutuam por entre os montes. Balões brancos amarrados em pencas sobem da praia distante a elevar três grandes letras apenas. (como escreveu Bertold Brecht em Cruzada de Meninos, o “P”, já sabido, adivinha-se o resto...).

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Ao jantar, silenciara a cantina...
Guerra civil, anunciou.
Oldengard não era neutro, e a bravata não apontava vantagem. – Na televisão o presidente fala à nação. Sereno, consolidadas instituições. Rumor de cadeira arrastada, jargões requentados entre os convivas, talheres caídos e um noticiário desses à repetir em cascata, imagem após imagem as cenas de um confronto filmado.
- Que vazio na rua! Como corria o soldado! O tiro o teria pegado...Não parasse de chôfre ante o abrigo de um poste, certamente o tiro o teria pegado! Aponta o repórter: A trajetória da bala; o furo da bala marcado; a marca furada da bala. Um soldado ajoelhado em apoio. - Repete-se a mesma fala, editam novas imagens.
- Velas acesas em cruz (um saco negro reluz). Um choro convulso. Uma mulher em desespero que se escabela de dor - Declarações do comando, tranquila presença, quepes azuis, tarja xadrez, divisa e gravata; a tez tostada do sol, luzes giratórias de alerta e ao fundo os Arcos da Lapa - Na escuridão que se estende entre o asfalto molhado e os trilhos o medo se esconde. (Os pais recolhem os filhos.)

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No escuro, os arqueiros retomam o alojamento e entre as réstias de luzes que há nos postes jogam-se às camas, cansados e silenciosos. Um ventilador varre os que já dormem pelos beliches de cima. Na janela alta, remendos transparentes fremem a cada lufada. (No silêncio que se instalou, o ventilador parece um avião de carga em manobras. Como o HS que voava à tarde com o seu tênue e arqueado rabo de fumaça negra; gordo pato verdoso a alçar-se pesado entre as balizas e os montes)



II
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Dormia em sono ferrado e emerjo de um pesadelo: - Ao descer a ladeira um sangue brilhante escorre no tanque de uma moto caída. Um sangue escuro e viscoso. - Risco o sangue com os dedos...
O que me acordou? O baque abafado na porta ou o pesadelo em que estava?
- Forçaram a nossa porta. Ninguém acorda...- Um chiado eletrizante de rádio, interferências, descargas de estática e vozes entrecortadas. Três militares fardados contornam a casa.
Espio pela janela.

-Entre as palmeiras que a brisa embala, oito caminhões militares pesados parados; portas abertas, motores ligados. Luzes baixas e pequenas sinaleiras de um vermelho discreto. - Inaudíveis quase. Silenciosos e escuros como um assombro de morte.
(Os velhos guerreiros Xavantes não dormem em noite de luta pra não sonhar maus presságios).
O vento frio do ventilador varre-me as costas nuas e abala-me o queixo. Tremo incontrolavelmente...
Viaturas militares e da polícia, carros de inteligência avançam na contra-mão. Um preto de vidros escuros fechados - São Jorge estampado à porta, dragão à lança varado segue o funesto cortejo.
Santo guerreiro...
Ogum!
O que querem aqui à essa hora? Porque lanternas acesas se já amanhece o dia?
- Rumores na outra porta. Forçam o alojamento do lado. Um vazio azíago engulha-me o estômago. Voltam em quatro e embarcam.

Move-se o comboio. Uma brasa de cigarro faísca estrelinhas ao solavanco da marcha. Vinte soldados sentados em carroceria coberta, cano de fuzil apoiado ao queixo, dedos cruzados, como a reconciliar no balanço do tranco, um remoto sono perdido. - Passam oito caminhões (fora os que já passaram), mais oito... ( doze com toldas fechadas) Quatro "brucutus" de grande porte, e por último, uma ambulância atrasada.
(Seiscentos homens, estimo.)

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Deserta a rua. As pedras gastas luzem ao óleo dos vazamentos.
Me sento a cama com frio... Ainda tremo de medo.
Nem mais um carro pesado, tanque ou blindado que seja...
Não se derruba governo...
Apascento o coração.

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O morro...

Um morro cinzento emerge ao amanhecer.
Jovens negros, mulatos, brancos e cafuzos, Indiáticos, alinhados e em desalinho, dentes brancos, imberbes, tristes primos-irmãos, empregados. Poucos brancos. Fuzis aos ombros, soturnos, vadeiam pelas calçadas.
(Mortos: um, em confronto civil e outros. – Nove, na madrugada passada).
Que diferença há, entre a camuflagem da farda e um mulato surrado nesse lusco-fusco que aterra? Criança, velho ou mulher... Estampidos sequenciados... É desta, a guerra que falam?

O quadrilátero da janela já dá os contornos da aurora!
Mas que horas?
E esse dia que não chega? Se anuncia, não avança ou recua...
Que dia?
Todos dormem. - Roça o ventilador a esvoaçar os cabelos dos que ressonam pelos beliches de cima.-
Quem tombará na favela?
No meu relógio novo vejo um número escuro no mostrador digital, e quase não vejo a hora. Parece sete. O dia à frente do mês? (um mostrador em inglês) O mês à frente do dia?
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Clareia


Saímos:
Não falo nada até chegar à cancela.
(Eu, Oldengard e a guarda) - Pergunto temeroso e afirmativo: Feriado?!..
Os olhos do soldado brilham e a sentinela se abre. Não é preciso mais nada. Já se sente o cheiro de casa, de varanda com as folhagens nas latas; da barra do mar que quebra, ao pé das pirambeiras que sobem, às costas do redentor...

Uma réstia morna de luz ilumina a rua. Flamejam ao sol as flores dos flamboaiãns.
Seiscentos soldados marcham na Independência. General das Merces... Marques do Sapucaí! Sapucaio-Tupi!
Que sofrimento danado!
(Setembro é nove, não sete.)

- Retomo a noção do tempo.
Entre alegre e aliviado, cantarolo:

Quando piso em folhas secas /
Caídas de uma mangueira /
Lembro da minha escola /
E dos poetas da minha Estação-Primeira / Não sei quantas vezes /
Subi o morro cantando /
Sempre o sol me queimando /
E assim (...)


--Assobio o resto.

S.L. 11 de setembro de 2007 - Orfilho de Toledo